21/07/2026

Dívida oculta de gigantes de tecnologia dos EUA chega a US$ 1,65 trilhão

Por: Nikkei Asia
Fonte: Valor Econômico
A dívida “oculta” das grandes empresas de tecnologia dos Estados Unidos
aumentou oito vezes em cerca de quatro anos, alcançando um valor estimado de
US$ 1,65 trilhão à medida que os investimentos em inteligência artificial
dispararam, segundo um estudo do "Nikkei Asia". O montante já supera a dívida
registrada nos balanços dessas companhias e dificulta a avaliação de riscos pelos
investidores.
O Nikkei analisou demonstrações financeiras recentes e outros documentos da
Alphabet (controladora do Google), Microsoft, Amazon, Meta e Oracle. As quatro
empresas, exceto a Oracle, devem divulgar seus resultados do segundo trimestre
a partir de quarta-feira, o que significa que os números podem crescer ainda mais.
A chamada dívida oculta — que não aparece diretamente nos balanços —
somava US$ 1,65 trilhão no trimestre mais recente, acima dos cerca de US$ 1,35
trilhão de dívida contabilizada oficialmente. Parte dos dados inclui estimativas.
A Meta se destaca pelo volume de obrigações fora do balanço: cerca de US$ 420
bilhões, quase o triplo de sua dívida registrada.
Essas empresas vêm ampliando rapidamente centros de dados e outros recursos
de computação para sustentar o desenvolvimento de IA, firmando contratos de
longo prazo para compra de GPUs e servidores.
A construção de data centers exige investimentos de bilhões — e, em muitos
casos, de dezenas de bilhões — de dólares. Para reduzir os custos iniciais, as
empresas de tecnologia costumam firmar contratos de arrendamento com
operadores de centros de dados. Em alguns modelos, o operador fornece terreno,
edifícios e infraestrutura elétrica, enquanto a empresa de tecnologia utiliza as
instalações por meio de contratos de longo prazo.
Pelas regras contábeis, GPUs e servidores contratados, mas ainda não entregues,
assim como contratos de arrendamento de data centers que ainda não entraram
em operação, são classificados como itens fora do balanço.
A Oracle vem avançando no projeto de data center em larga escala Stargate, em
parceria com a OpenAI, utilizando contratos de arrendamento com operadores
externos. Sua dívida oculta atingiu US$ 273,3 bilhões no fim de maio, um
aumento de mais de 30 vezes em quatro anos.
Essas obrigações futuras não aparecem no balanço principal, mas em notas
explicativas dos relatórios trimestrais. Embora a prática seja legítima segundo as
normas contábeis, ela pode dificultar que investidores de varejo percebam os
riscos envolvidos.
Parte do mercado já demonstra preocupação. O Morgan Stanley analisou o tema
em detalhe em um relatório para investidores, enquanto a agência de
classificação de risco Moody’s alertou, em fevereiro, para o crescimento acelerado
de compromissos de arrendamento que ainda nem começaram.
As empresas de tecnologia apostam que seus lucros futuros superarão essas
obrigações. Os contratos já firmados de Microsoft, Alphabet e Amazon para
serviços de nuvem e outras operações somavam cerca de US$ 1,45 trilhão no fim
de março. O CEO da Amazon Web Services, Matt Garman, afirmou que os
investimentos da companhia “não são especulativos”.
As cinco empresas se recusaram a comentar o aumento de suas dívidas ocultas.
Investidores institucionais também estão se tornando cada vez mais relevantes
nesse processo. A Meta formou uma joint venture com fundos administrados pela
gestora americana Blue Owl Capital para construir um gigantesco data center na
Louisiana, cujo custo total de desenvolvimento foi anunciado em 2025 em US$
27 bilhões.
Ao adquirir uma participação de 20% na empresa operadora do data center e
utilizar a instalação por meio de um contrato de arrendamento, a Meta garantiu
capacidade de computação, mas também ampliou sua exposição fora do balanço.
A empresa possui ainda um contrato que garante aos investidores cobertura de
perdas caso o data center se torne desnecessário e o arrendamento seja
encerrado. Em 13 de julho, a Meta anunciou que o investimento total no projeto
deve agora superar US$ 50 bilhões.
As gigantes de tecnologia já vêm recorrendo à emissão de títulos corporativos e
novas ações porque seus gastos com investimentos superam os lucros gerados.
A captação adicional junto a investidores institucionais estaria contribuindo para
um ambiente de investimento excessivamente aquecido.
Em relatório publicado em março, economistas do Banco de Compensações
Internacionais (BIS) classificaram como “shadow borrowing” o mecanismo pelo
qual empresas captam recursos de investidores institucionais sem aumentar a
dívida registrada em seus balanços. O BIS expressou preocupação com o risco de
projetos de data centers perderem fôlego e de uma eventual frustração com a IA
se espalhar pelo mercado.
Um executivo de uma firma japonesa de auditoria afirmou que cresce a
preocupação de que o “peso financeiro real” dessas empresas seja
“significativamente maior do que o que aparece em seus balanços”.
Embora o caso seja fundamentalmente diferente do das atuais gigantes de
tecnologia, a empresa de energia Enron entrou em colapso em 2001 após
esconder dívidas fora do balanço por meio de uma rede de empresas de fachada.
Mesmo quando as práticas contábeis seguem as regras, o aumento de joint
ventures com baixa transparência pode elevar a desconfiança do mercado.
Grande parte dessa dívida oculta acabará sendo registrada no futuro. Quando os
data centers entrarem em operação, as obrigações associadas poderão se tornar
repentinamente muito concretas. Se a demanda por IA não crescer como o
esperado e as taxas de utilização caírem, o valor desses ativos poderá diminuir,
gerando perdas.
Segundo o Nikkei, a indústria de IA atual é sustentada em parte por uma
demanda criada por investimentos circulares: Nvidia e grandes empresas de
tecnologia investem em operadores de data centers e companhias de IA, e esse
capital retorna na forma de compras de GPUs e pagamentos por serviços de
nuvem. Como a demanda efetiva é difícil de medir, aumenta o risco de
superinvestimento em data centers.